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Políticas Portuguesas de Ornitologia

 

Em Portugal continuam-se a usar os pássaros que criamos para fazer guerras entre os que os criam. A criação de aves é uma actividade amadora, servindo os clubes ou associações e federações para defender os seus interesses, para divulgar as suas aves, para organizar exposições, entre outros. Em Portugal, dá-se muita importância aos «entre outros» e ao protagonismo pessoal.

Por cá, temos criadores que estão filiados em clubes ou associações, que por sua vez estão filiados em federações. As federações constituem a COM-P que é a representante portuguesa na COM. A COM, Confederação Ornitológica Mundial, é a entidade que regula os standards, regulamenta as anilhas e promove as exposições em todo o mundo. A COM Portugal é a entidade que a COM internacional reconhece em Portugal e que teoricamente representa todos os criadores e juízes nacionais.

Em Portugal, se as pessoas se preocupassem mais com os pássaros e menos com protagonismo e com guerras pessoais, a estrutura necessária seria a existência de clubes ou associações e de uma federação nacional. Quanto muito, o país poderia ser dividido em duas ou três regiões e cada clube era representado por uma federação regional, mas penso que essa estrutura não se justifica. Isso já seria criar divisões desnecessárias cujos proveitos seriam diminutos.

Como assim não é, actualmente existe a COM-P que é constituída por todas as federações. Cada federação tem clubes e juízes a ela afectos e cada clube pode-se inscrever na federação que quiser. O único problema da não afectação de um clube a uma determinada federação regional são os juízes. É que cada federação tem um colégio de juízes próprio e cada clube, quando realiza uma exposição, já sabe que os juízes que vão julgar as aves na sua exposição, são os juízes inscritos na federação a que pertence. Isto dá origem a situações estranhas pois numa determinada secção, se uma federação não tiver juízes, as aves dessa secção não são julgadas, apesar de outra federação nacional poder ter juízes nessa mesma secção. Achava eu que era uma situação que não passava pela cabeça de ninguém… Por outro lado, se um clube realizar uma exposição num determinado local e se a federação a que pertence só tiver juízes residentes a 400kms, o clube vai ter de pagar a deslocação do juiz, apesar de outra federação poder ter juízes que morem ao lado do recinto de exposição. Especialmente devido aos juízes, acho que não faz sentido haver mais do que uma federação ou que elas não sejam exclusivamente regionais ou ainda que os juízes estejam afectos exclusivamente a uma determinada federação. No entanto, acho que são os juízes a fomentarem toda esta confusão, já que quase toda a problemática existente entre federações passa por eles. A existência de uma só federação faria com que os criadores se sentissem mais unidos e todos a remar na mesma direcção, ao contrário do que acontece actualmente.

Como se isto tudo não bastasse, existem pessoas que de um passatempo que deveria ser de criar pássaros, acrescentam-lhe outro, e vai de fazer guerras pessoais. Nesta altura existem três federações em Portugal a FONP, a FPO e a FOCIP. A COM-P é constituída pela FONP e pela FPO. A FOCIP é uma federação mais recente que se foi fazendo com clubes que saíram da FPO. Saíram porque os presidentes dos clubes se foram incompatibilizando com o presidente dessa federação. As guerras foram sendo sempre com 2/3 clubes que nunca tiveram peso na devida altura para derrubar a direcção da Federação e estes foram saindo até que nesta altura a FOCIP representa cerca de 30% dos criadores nacionais, mais do que a própria FPO. Pessoalmente acredito que os problemas da FPO sejam da responsabilidade do seu presidente. Se eu fosse presidente de uma federação e visse mais de metade dos meus associados saírem, demitia-me uma vez que estava a representá-los mal ou pelo menos porque era esse o pensamento deles, mas isso sou eu. Tomaria essa atitude porque os meus objectivos seriam representar os criadores e não objectivos pessoais, como deixam transparecer ser os do actual presidente. Os comunicados deste ano da FPO são todos no sentido da divisão entre os criadores como retaliação da saída da FPO por parte da AAP e do COV. Nesta altura a FOCIP cumpre os requisitos para pertencer à COM-P. No entanto para que isso aconteça é necessário que as outras duas federações concordem e elas não o fazem. E isso só não acontece por abuso de poder. Se a nova federação cumpre os requisitos em clubes associados, em sócios que representa e tem juízes a ela afectos, então a FOCIP só não é aceite na COM-P porque os que já lá estão não têm em conta as regras existentes, os criadores que estão afectos a essa federação e nem o passatempo para que foram criadas. A FOCIP está interceder junto da COM mas se não houverem resultados em tempo útil, ou seja antes do primeiro pedido de anilhas, 30% dos criadores portugueses têm anilhas ilegais e não podem concorrer em concursos organizados pela FPO, FONP ou COM. É com este drama é que os clubes da FOCIP vivem e é com isso que jogam as outras federações. Na FPO é um caso de prepotência do seu presidente e a FONP aguarda que os clubes saiam da FOCIP, porque não é reconhecida, e ingressem nela própria.

Como já disse não concordo com tantas federações e colégios de juízes, mas com as regras existentes, a FOCIP tem o direito à sua existência legal perante a COM. A meu ver a FONP é a única federação com provas dadas de competência e de organização. Veja-se o exemplo do Mundial 2010 em que a FPO não conseguiu garantir um recinto para o evento em 2 anos e a FONP o fez em 2 meses. Assim sendo, não vejo razões de fundo para que não haja, no futuro próximo, uma FONP alargada a todas as pessoas ligadas a este passatempo e nela representadas com a máxima transparência e com regras bem definidas.

A AAP, clube do qual sou sócio, realizou uma Assembleia-geral Extraordinária com vista à sua saída da FPO e ingresso noutra federação. Tal situação foi motivada por atitudes do presidente da FPO que prejudicaram o clube. Se a saída da FPO é mais ou menos pacífica, dadas as circunstancias, o caricato da situação, foi que foram apenas necessários 10 sócios para obrigar a AAP a pertencer à FOCIP, sendo que a grande maioria dessas pessoas, se não todas, são juízes que pertencem à FOCIP. A AAP é o maior clube português ligado à ornitologia e por desinteresse dos seus sócios, já que não vieram à AG, eles próprios estão impedidos de participar em campeonatos nacionais ou internacionais e de as suas anilhas serem reconhecidas pela COM. Será que as pessoas que votaram na entrada da AAP para a FOCIP pensaram nos criadores ou nos seus interesses pessoais? Não estaremos perante um claro conflito de interesses? Isto leva-nos a outro problema. Basta 10 pessoas inscreverem-se num clube, irem a uma AG (porque não vai quase ninguém) e os clubes passam para essa federação. Mas para as direcções dos clubes, para isso, ninguém está disponível. Com que motivação se sente uma direcção de um clube que participa activamente em exposições, que vence dois nacionais seguidos com larga margem, e que, a partir de agora, esse clube está excluído de todas as actividades ligadas à COM, já que está inscrito numa federação que não é reconhecida pela COM.

Para haver mais do que uma federação, que sejam regionais ou então que os juízes não lhes sejam afectos pelas razões que já indiquei e que acontecem na realidade e que testemunhei na época passada. Mas será que toda esta confusão não será originada e mantida por juízes ou outros dirigentes que querem ser os protagonistas neste passatempo e não as aves que criamos? Nós não vemos em clubes desportivos que se zangam começarem a fazer federações. Se nós que somos uns ilustres desconhecidos, continuamos a querer o protagonismo individual e não colectivo, não iremos a lado nenhum, nem sequer perante os órgão de ornitologia internacional. Já não estamos na idade média e cada vez mais pertencemos mais àquela «aldeia global», onde não fazem qualquer sentido guerras estúpidas entre norte e sul ou outras quaisquer. Penso que o que faz sentido é estarmos todos unidos, mostrando o que fazemos, sem protagonismos individuais nem guerrilhas idiotas, a bem do que deveríamos fazer com tranquilidade e qualidade que é criarmos as nossas aves e para que seja reconhecida a nossa actividade como criadores. Para que as coisas funcionem bem, o colectivo deve sempre sobrepor-se ao individualismo e por vezes é preciso abdicar de algumas questões pessoais. Não nos podemos esquecer que dentro de poucos meses vão haver pedidos de anilhas e que se anuncia para o fim do ano, a continuarmos assim, o nacional da discórdia e da desunião dos criadores nacionais. Isto para não falar do Mundial que é daqui a pouco mais de um ano e que, com esta mentalidade e maneiras de agir, vamos dar um grande aspecto aos nossos colegas dos outros países.

Não pretendi com este artigo atacar quem quer que seja, apenas mostrar a situação em que nos encontramos em termos de organização e de união. O que gostava é que nos uníssemos todos numa só federação a uma só voz, com regras bem claras e que pensássemos neste passatempo como tal e que lutássemos por ele e não por questões pessoais sem ser necessário perder tempo com questões deste tipo.

 

Autor: José Paulo Correia

 

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